
As estatísticas comprovam o medo sentido pela população de Fortaleza
Nesta semana falei no meu comentário na Tribuna Band News FM (101,7) sobre ativismo digital, comentando a respeito do que alguns chamaram de “investigação social”. Nada mais do que pessoas se reunindo em fóruns pela internet para analisar fotos, vídeos, fatos, delírios, tudo que pudesse servir de pista para localizar os responsáveis pelo atentado de Boston.
Um tema que hoje mobiliza as redes sociais dos moradores de Fortaleza é a violência. Todos os dias os testemunhos de vítimas se multiplicam. Não tem hora, local, nem razão. Não existe local seguro na cidade. Cercas de arame em aspirais usadas nos campos de concentração da segunda guerra são “moda” em Fortaleza. No condomínio onde moro tem uma coisa horrosa dessa. Já escrevi que é impossível não ter medo em Fortaleza. A violência atinge o interior, os estádios, noite e dia, todas as estatísticas provam a urgência da situação. Eu morei 25 anos no Rio, um em São Paulo, passei temporadas em Luanda e Salvador e posso dizer com bastante preocupação: nunca senti medo, o que hoje, sobretudo quando estou com a família, sinto o tempo todo em Fortaleza.
A partir do mesmo sentimento, os profissionais de marketing Bosco Couto e Elias Hissa resolveram criar uma página no facebook – https://www.facebook.com/Fortalezasemmedo – para transformar todo este caos de desesperos pessoais num movimento coletivo e integrado. Hoje são cerca de sete mil pessoas fazendo parte, trocando informações e propostas. Segue entrevista com Bosco Couto, que explica com mais detalhes o que é e o que pretende o “Fortaleza sem Medo”
Tribuna do Ceará – Quem criou e por que foi criada a página Fortaleza sem Medo?
Bosco Couto – Eu e o Elias criamos a página e o movimento, somos dois empresários, temos uma empresa especializada em estratégia e marketing. Tínhamos uma inquietação com o estado da cidade, suja, feia e principalmente violenta, sempre discutíamos que deveríamos usar parte de nossa energia e de nosso conhecimento em estratégia para uma causa social, para ajudar a cidade. Com o crescimento da violência em Fortaleza, evidenciado pelas notícias e relatos de algumas pessoas, começamos a amadurecer que esta seria a causa. Temos filhos pequenos e não queríamos que eles crescerem rodeados por grades, com medo de andar na rua ou pior, que fossem as próximas vítimas. Acho que pensar em nosso filhos foi o empurrão que faltava e após ler uma notícia sobre um crime, escrevi um texto chamado pequenos massacres diários, que você publicou no Tribuna do Ceará. O texto teve uma enorme repercussão e dias depois criamos o FortalezaSemMedo.
Tribuna do Ceará – O movimento tem uma proposta muito bem formatada. Existe alguma entidade por trás da iniciativa?
Bosco Couto – Não, ela é bem formatada porque nosso trabalho é o desenvolvimento de estratégias e planos. A gente faz isto todo dia e nossa cabeça é treinada para pensar assim. Quando criamos o movimento, pensamos que seria bom planejar o movimento e não só desabafar. Entendemos de fato sobre engajamento, hábitos, comportamentos, etc e sabíamos que teríamos que trabalhar o movimento em 3 frentes: mostrar a realidade nua e crua, com fatos, dados e relatos, pois isto engajaria as pessoas e com muita gente o Poder Público seria pressionado; pesquisar ideias e iniciativas já realizadas pelo mundo, pois só reclamar cairia no lugar comum, queria ter ideias para dizer, cobramos e sugerimos, no mundo corporativo, sempre dizemos que quando for chegar com um problema a pessoa deve trazer a solução, fizemos o que cobramos dos outros, para isto fizemos uma grande pesquisa com ideias e programas de outras cidades, lemos revistas e livros e usamos nosso conhecimento em planejamento e estratégia para organizar, reformular e criar algumas ideias que faltavam e terceiro, fizemos conexões e usamos o pensamento em design para estruturar os pensamentos e textos, explicando melhor, sabemos que gráficos funcionam melhor que textos, recortes de jornais, manchetes, pequenos quadros comunicam bem melhor. Também indagamos mais do que afirmamos, o que leva as pessoas a pensarem. Usamos nosso conhecimento para potencializar a causa.
Não existe nenhum partido político conosco, nenhuma entidade, nenhuma empresa. Somos somente eu e o Elias, e agora quase sete mil pessoas.
Tribuna do Ceará – Há uma impressão de que as pessoas preferem contar no facebook os casos de violência sofridos a registrar boletins de ocorrência. Isso existe?
Bosco Couto – Tem duas análises neste ponto. Uma é que existe um certo descrédito no sistema, não por culpa da polícia e sim por culpa do sistema todo. Algumas pessoas acham que não vai dar em nada, que não existe estrutura para investigar e isto desestimula muita gente, neste sentido muitos recorrem ao FortalezaSemMedo, pois acreditam que colocando suas histórias estão ajudando a pressionar a opinião pública e a mídia, que por sua vez pressionam o Governo a mudar este contexto, e de fato os relatos ajudam muito. A segunda questão é a do desabafo, a pessoa que sobre uma violência, um trauma precisa compartilhar e desabafar para poder suportar melhor, ela precisa gritar, neste sentido também o FortalezaSemMedo funciona bem.
Tribuna do Ceará – Esse é um ponto importante. Muitas manifestações nas redes sociais parecem apenas desabafos. Como o ativismo digital pode ter um desdobramento concreto?
Bosco Couto – Muitas são de fato desabafos e isto é muito válido. O direito de falar, de reclamar, de sugerir, de ser ouvido. Desta forma as pessoas participam de fato de uma causa pública e isto é ótimo, pois é transformador, gente que às vezes estava conformada e acomodada e de repente se engaja e tem sua voz escutada. É uma forma de estímulo à cidadania. Só este fato já seria uma conquista, mudar a mentalidade de uma população que geralmente só pensa em seus problemas e passa a pensar e agir pelo coletivo. O desdobramento disto é que muitos começam a participar e o grupo vai aumentando, quanto mais gente, mais pessoas acreditam n movimento e se estimulam a entrar, vira uma bola de neve.
Muita gente significa relevância e relevância significa que o coro dos descontentes engrossa e isto pressiona o poder público. Deixamos de ser invisíveis e passamos a incomodar, principalmente quando temos ideias e dados, não é só reclamação. O Governo já nos monitora, já ligou para a gente, já apresentamos nosso movimento e ideias para a prefeitura, já somos matéria de jornal e programas de rádio e aí a pressão aumenta. O tema segurança faz parte da pauta da sociedade e agora do Governo, isto é uma grande conquista.
Tribuna do Ceará – Existe algum diagnóstico confiável do quadro de segurança na cidade?
Bosco Couto – Sim ,claro, um caos, assaltos diários em todos os bairros, taxas altas de homicídios. Só para você ter uma ideia, Fortaleza em 2012 teve 1.628 homicídios. Isto equivale a aproximadamente 66 homicídios por grupo de 100mil habitantes, Fortaleza tem 2.450.000 habitantes. São Paulo, que tem 10.800.000 habitantes, teve em números absolutos em 2012, 1.497 homicídios, ou seja, 13,86 homicídios por grupo de 100mil habitantes. Note que em números absolutos temos mais assassinatos que São Paulo, que está sujeito às mesmas leis, sendo que SP tem 4X a população de Fortaleza. Além disto nossa taxa de homicídios por 100mil é 66 e SP é só 13.
A OMS (Organização Mundial de Saúde) considera acima de 10 homicídios por 100mil uma EPIDEMIA. Em Londres a taxa é de 2 por 100mil. Só em janeiro e fevereiro deste ano já foram registrados 305 homicídios em Fortaleza. Se fizermos uma projeção simples (305 dividido por 60 e multiplicado por 365) o número vai para 1.855 homicídios em 2013, o que daria 75,7 homicídios por grupo de 100 mil habitantes. Bogotá, que já foi considerada uma das cidades mais perigosas do mundo tinha em 1995 uma taxa de 80 por 100mil. Hoje, depois de vários programas estruturados de combate a violência, a cidade estampa um índice de 22 homicídios por 100mil, ou seja, muito mais segura que Fortaleza. O número de assaltos a coletivos é outro absurdo e penaliza a população mais necessitada da cidade. Em 2012 foram 557 ocorrências, no ano todo, em 2013 somente nos 3 primeiros meses foram 579, ou seja 3 meses já tem mais assalto que 1 ano todo.
Tribuna do Ceará – Hoje quase 7 mil pessoas fazem parte do Fortaleza Sem Medo. Por tudo que vocês têm ouvido e conversado, já existe hoje esperança em dias melhores, com os cidadãos de Fortaleza podendo ocupar com tranquilidade o espaço público?
Bosco Couto – Sim, esperança sim. Achamos que ainda existe um longo caminho, mas já temos sinais positivos. Primeiro de parte da sociedade que está discutindo o tema e exigindo respostas. Mudar isto já é uma vitória. Segundo: o Governo está incomodado, está ciente do movimento e das ideias, a reação ainda é de negação, de desqualificar, mas sabemos que ele está agindo, errado ou não, estruturado ou não, saiu do estado de letargia. Acredito que deve aparecer algumas ações do Governo em breve, mudança de lideranças, estruturação, etc. Mas uma mudança interessante está vindo do lado da prefeitura. Foi criada a secretaria de segurança cidadã, foram convidadas pessoas sérias, estudiosas do tema.
Foi criado um grupo multidisciplinar que se reúne toda segunda e eles estão pensando em soluções coerentes. Nos chamaram para apresentarmos as nossas ideias. Fizemos isto, eles gostaram, muita coisa eles já tinham pensado, outras não. Perguntaram se podiam usar as ideias na cidade. Demos o sinal verde, ou seja abriram um canal de diálogo e querem de fato mudar. Já estão agindo em temas que são da competência da prefeitura, como ordenamento urbano, fechamento de bares, retiradas de barracas irregulares, vão rever a iluminação, calçadas, segurança nos terminais. Se usarem nossas ideias, (17 se aplicam à prefeitura), já será uma grande vitória.
A roda está girando, constante, o tema é complexo e difícil, não se resolve rápido, mas as ações têm que começar agora.